Notícia | Fliperama Análise
Monster Hunter Tri
27/05/2010 às 15:27
Monster Hunter Tri
Se prepare para caçadas e churrasco em Monster Hunter Tri, um complexo e bem ambientado game que é diferente de tudo que você já viu no Wii

...
8.8
Ótimo
Mais sobre o jogo: ImagensVídeos
prós/contras
+ Campanha envolvente
+ Multiplayer balanceado
+ Quantidade de cinematics
+ Gráficos
+ Número de jogadores
- Poucas raças
- Poucas unidades
Checando os bolsos, sua mão esbarra em pedras rugosas, em bastante número para afiar sua gigantesca espada de osso, cujo peso já vem causando um pouco de desconforto nas costas. Poções de cura, ervas frescas tiradas da relva e um céu azul brigadeiro. Tudo pronto para a caça. Você se senta com sua pesada armadura e observa longamente a carne crua sendo cozida em fogo bravo. E aí o ar é tomado por um acorde tenso, o tipo de tom "vou te comer vivo" que anuncia a chegada de um raro Grande Jaggi. Na distância já é possível ver o pescoço da criatura, tenso e eriçado, cheirando no ar a presença do invasor, o aroma da carne preparada e devidamente estocada. O animal, parecido com um velociráptor, não está sozinho: soltando um grito rouco, outros Jaggi menores se juntam na arena, seu vai e vem como as ondas de um mar agitado. É a hora do ataque.

Você avança, embanhando a gigantesca espada com a impaciência de um Kelbi acuado. O estampido da lâmina, em um movimento de meia lua, ceifa diversos pequenos dinossauros de uma vez, mas o Grande Jaggi não podia dar menos crédito a façanha. O monstro é todo Mouhammed Ali, seu porte de peso-pesado disfarça seu ágil jogo de pernas, cujo resultado é uma pancada que deixaria qualquer pugilista pensando uma segunda vez. Mas enquanto sua energia física vai diminuindo, e seu fôlego se perdendo em uma rotina de desviar, correr, contra-passos e ataques, não há espaço nem para a primeira vez. O diálogo entre a criatura e sua espada é um catártico jogo de gato e rato, onde todo movimento parece ser o último. O Jaggi foge, e não há tempo a perder: reagrupar não é uma opção. Você corre, e lá estamos de novo um contra o outro. Isso se não fosse outro acorde tenso, outro pescoço eriçado. E enquanto um segundo Grande Jaggi se junta a caça, você fica pensando qual foi a última vez que seu Wii te botou pra suar de verdade.

Isso é Monster Hunter Tri em uma casca de noz. Tri é a continuação da série Monster Hunter, que nasceu no PS2, cresceu no PSP e é muito conhecido por gamers japoneses, com os quais a marca ganhou fama considerável. Okay, estamos sendo simplistas: a Capcom se certificou de lançar este último game por lá em um fim de semana, pelo simples fato de que o lançamento é o tipo de evento que atrai gamers nipônicos de tal forma que é capaz de frear o rendimento profissional de um dia útil. É, a coisa lá faz um sucesso estrondoso, e agora a Capcom finalmente decidiu se arriscar em trazer a franquia para o ocidente. É sim uma manobra complicada: os games Monster Hunter são famosos por sua dificuldade, e trazê-lo a um público americano, e ainda casual como o do Wii, pode se provar algo pouco sábio. Mas a Capcom provou ter um jogo de cintura comparável ao de um Jaggi, e criou uma experiência de jogo ampla, bem ritmada e uma coisa mais rara que qualquer Giant Skull: um game do Wii que simplesmente implora pra ser jogado online.

Na natureza selvagem

A história de Monster Hunter Tri é simples. O jogador cria um personagem - via um sistema de criação pouco refinado - e já é mandado direto para Moga Village. É aqui que os problemas começam: a vila litorânea está sendo constantemente vitimada por terremotos e, como se isso não bastasse, as rotas de comércio estão sendo ameaçadas pela presença do pomposo Lagiacrus, um enorme dragão da água saído sabe-se lá de onde, conhecido por devorar embarcações numa só mordida e por ser um valoroso oponente: nenhum mortal jamais o superou em combate. Nem tampouco qualquer iniciante. Por isso a Capcom faz um excelente trabalho em te introduzir pedaço a pedaço as pequenas nuanças do jogo via um tutorial desenhado de forma orgânica, que nunca te prende em uma rotina pré-definida. A serpente marinha super desenvolvida serve como desculpa para te colocar em diversas missões que, quase sem querer, te colocam a par do ritmo e da lógica do jogo. É esse meio de botar os gamers lentamente dentro do game que é o primeiro trunfo de Tri. Mas é preciso dizer que nem tudo fica assim tão claro: informações cruciais sobre como o sistema de elementais e de aumento de status realmente funcionam nunca são deixados à disposição do jogador. A importância desses elementos cresce conforme o jogo evolui, e muitos vão acabar batendo em uma barreira sem saber como sair.

Monster Hunter Tri é um game sobre o prazer da caça, e em âmbito de jogabilidade é um "RPG braçal", onde a habilidade fala tão alto quanto o preparo: o nível numérico da defesa de seu escudo preferido não serve para nada se você não estiver com ele em prontidão na hora do ataque inimigo, e a capacidade ofensiva de uma espada gigante - que chega fácil na casa dos milhares - é inofensiva se seu golpe errar o adversário. Pouca coisa é deixada para trás das cortinas ou para o próprio jogo. Também diferente de RPGs tradicionais, sua evolução não se dá em níveis. A única maneira de conseguir um personagem mais forte é construindo um bom guarda-roupa. Monster Hunter Tri conta com um mega profundo sistema de inventário e de forja. Itens podem ser combinados com a ajuda de um ferreiro para criar um sem-número de espadas, vembraças, cintos e manoplas, cada uma com sua particularidade, força, fraqueza e aparência próprias. As possibilidades beiram o infinito, e vão te deixar caçando itens a torto e a direito atrás daquele kit indestrutível.

O apelo do game vem sem dúvida de uma interessante mistura do que fez outros dois games famosos: por um lado, o game apresenta uma fauna ampla de criaturas cativantes, com habilidades únicas uma das outras, em um ritmo similar ao de Pokémon. Por outro, encoraja um nível quase compulsório de coleta: o que importa de verdade em cada combate é a oportunidade do espólio, do que cada animal derruba. Lembra Diablo, certo? Pois é. Debaixo de todos os polígonos e rostos ameaçadores, o ciclo íntimo de Monter Hunter é claro, quase como uma doutrina religiosa: planeje sua rota, quais as dificuldades do caminho, estoque itens como ervas medicinais, bebidas refrescantes, carnes para manter o fôlego - uma barra que vive em constante queda e é essencial para poder desviar e aplicar golpes - e machadinhas para coletar itens. Lute contra animais menores, depois com os grandalhões, vença-os, pegue os itens que ele deixa e use-os para planejar seu próximo equipamento. E aí Repita. Dentro dessa rotina o jogador é convidado a gerenciar uma pequena fazenda, escolhendo o que plantar e coletando (adivinhem) itens diversos e até mesmo a mandar barcos pesqueiros buscarem riquezas no mar. O nível de gerenciamento é detalhado, e meio avassalador de início, mas funciona como um relojinho. Em pouco tempo você estará acostumado a mandar frotas atrás de um tesouro submarino ou cultivar cogumelos selvagens, mesmo que a interface para tanto nunca deixe de parecer um pouco jurássica.

Não se pode caçar sem as ferramentas adequadas, e Monster Hunter está mais do que feliz em deixar a sua disposição uma variada quantidade de armas - tudo com o devido investimento de tempo e recurso. Há centenas de opções, mas todas se reúnem dentro de sete tipos, e cada um deles é uma nova modalidade de jogabilidade por si só. O jogador tem acesso inicial à combinação de espada curta e escudo, ágil e eficaz, mas pouco poderosa. A partir daí, aparecem espadas longas que parecem tiradas diretamente de um filme de samurai, martelos, o versátil Switch Axe - que são duas lâminas em uma - armas de fogo e as espadas de grande porte, que são a real natureza de Monster Hunter. Você não maneja essas armas pesadas, você as empurra. É necessário um bom senso de ritmo e coordenação pra conseguir acertar um golpe em criaturas mais ágeis, mas ver um Kelbi voando como uma saca de batatas depois de tomar uma lapada no ombro é algo de raro valor. O jogo ainda conta com um combo de escudo e lança que é ainda mais difícil de manejar. A Capcom avisa: é só pra quem é mesmo hardcore.

As armas de fogo merecem um parágrafo à parte. Chamadas aqui de Bowguns, suas classificações dependem do peso, e cada arma pode ser modificada em três modalidades distintas, que representam cada parte do corpo do equipamento. Além da variedade de combinações possíveis, há a chance de coletar tipos de munições com atuações diversas: inflamáveis, envenenadas, curativas, e até balas anti-balas! Some isso a um bom sistema de mira e você terá algo que é de longe mais completo e satisfatório que qualquer outro shooter no Wii. Parábens ao time da Capcom!

O sistema de controle, entretanto, é um pouco sofrível demais. É melhor que na época do PSP, sem dúvida, mas tem ainda seus problemas. Jogando via Wiimote, o comando de câmera é regido pelo direcional digital, exigindo que o jogador tire constantemente o dedo do botão de ataque para controlá-la. Há uma maneira de retornar a câmera para as costas do personagem, mas faz pouco para ajudar. Diferentes golpes são executados girando o Wiimote para a esquerda, direita ou deixando-o de pé. Não é tão complicado quanto parece, mas vai se tornar um estorvo quando você chegar em batalhas mais desafiantes como as contra o Rathalos ou Diablos. Subir e descer seu dedão entre câmera e ataque enquanto gira o Wiimote de lado em um combate que pode durar de 50 minutos para mais é uma rotina bem extenuante. A nossa dica é jogar o game com o Classic Controller Pro: embora não tivemos a chance de testar o game com ele, a existência de duas alavancas analógicas facilitam e muito. Ainda mais numa das principais novidades do jogo: a chance de lutar debaixo d'água. Como é a câmera quem rege onde o personagem se move, usar o Wiimote é pouco intuitivo e cansativo. Prepare-se para estourar o dedão. Reclamaríamos também da falta de um sistema de Lock-On para travar sua visão no oponente. Mas isso seria não entender o propósito. Monster Hunter Tri te relembra que você deve sempre saber se posicionar em combate, por sua própria conta e risco.

Desvenda-me ou te devoro

E os chefes do game reiteram: sua posição no combate, meu caro, está lá embaixo da cadeia alimentar. São esses animais de grande porte as verdadeiras estrelas do game. Cada um é único, e esconde por trás de animações muito bem realizadas uma complexa rotina de golpes: o combate contra eles ainda é, na maioria dos casos, pura memorização de padrões. Mas desafiamos vocês a encontrarem seres mais vivos em videogames. O Lagiacrus, por exemplo, não é só um bolo grande de polígonos e números. A primeira vez que você o vê é uma experiência e tanto: caçando pacíficas criaturas marinhas, o jogador repentinamente cruza com a enorme serpente marinha. Vê-la enrolada para o bote, enquanto seu parceiro grita pra você dar no pé e a excelente música orquestrada sobe uns bons tons, é de deixar os nervos à flor da pele. Essas são criaturas a serem respeitadas, qualquer falha significando um game over. E nada te coloca o medo no coração como ver 200 toneladas de carne e couraça correndo na sua direção. Além da vivacidade de sua rotina de animação, os chefes demonstram uma interessante mecânica de ecossistema, que vale para quase todas as criaturas. Muitas vezes não passa de um mero "esse bicho não se dá bem com aquele, aquele se socializa com outrem", mas há suas exceções. Analisar, por exemplo, a rotina diária e alimentar de pequenos aracnídeos para descobrir exatamente como tirar os melhores itens é uma tarefa que certamente vai te deixar cativado pelo universo criado pela Capcom. O jogo pode ser desafiante, mas os castigos são mínimos, e ele ainda é recheado pelo humor típico da empresa. Cavernas escuras são povoadas por pequenos felinos dançantes, Altaroths alimentados fogem como podem dos combates, e está pra existir um povo mais despreocupado que os divertidos habitantes da vila central. Ah, e vale a pena correr de um dos chefes só pra assistir a hilária animação desesperada da fuga. Imperdível.

A Capcom apostou alto no modo online de Monster Hunter Tri, jogando fora todos os inconveniente do sistema Wi-Fi Connection e dos Friend Codes em prol de um sistema proprietário bem mais agradável, dinâmico e com um mínimo de lags e problemas técnicos. O game traz suporte para o aparelhinho Wii Speak, que é uma baita mão na roda quando se joga com outros três jogadores. O mundo online conta com missões próprias, independentes da campanha principal, e são muito mais desafiadoras. A dificuldade faz brotar uma necessidade de se usar qualquer truque no repertório: é aqui que as diferentes armas realmente funcionam. Você pode estar golpeando um monstro com sua espada e escudo, enquanto um jogador está de longe atirando com a Bowgun e um terceiro está chamando a atenção da criatura para seu companheiro terminar de preparar uma poção ou um pedaço de carne. A mobilização é essencial, o que pode assustar gamers mais casuais. Mas com a quantidade de conteúdo e a promessa de ainda mais missões para download gratuito, o modo online é obrigatório. Ainda mais quando se considera que a Capcom cobra mensalidade para o uso do serviço no Japão. Nós do ocidente, por outro lado, aproveitamos na faixa.

Fora esta opção, ainda é possível se reunir com um amigo para lutar em diversas arenas contra a fauna numerosa de Tri. A câmera Split-screen não é invasiva e a velocidade do jogo não sofre nem um pouco. Jogadores podem até exportar caçadores de um jogo para o outro salvando-os no Wiimote. Conveniente, não? Vale lembrar que itens ganhos tanto offline quanto online podem ser enviados para seu personagem no modo campanha.

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Falar tudo sobre Monster Hunter Tri em uma só análise é impossível. E nem é esse o objetivo. O que é importante de deixar claro é que Monster Hunter Tri é sim um dos mais diferentes e únicos games a surgirem no Nintendo Wii, mas também um dos mais ocidentalizados da série. Um tutorial que promete uma curva de aprendizado um pouco mais suavizado - o sucesso disso vai depender de jogador pra jogador - e um modo online bem construído e gerenciado garantem que o que já era bom, ficou melhor ainda. E na medida para um público mais amplo. A dificuldade chega a picos consideráveis, o game ainda é teimoso em te deixar à deriva em algumas nuanças da jogabilidade e o controle pode chegar a ser atroz para quem não investir em um Classic Controller. Mas é justamente em um ponto entre esse diálogo de tirar e pôr que a sinergia do game vai te cativar. O que é avassalador logo vai se tornar natural: aqui o problema do excesso é sabiamente convertido em ampla versatilidade de jogo. E, no final das contas, é o universo do game que vai garantir sua estadia. É um pouco engraçado pensar, mas entre Cabela's Pro Hunter, Endless Ocean e Harvest Moon, é justamente um jogo sobre espadas gigantes e dinossauros de faz-de-conta que vai te fazer sentir mata a dentro no fundo da natureza selvagem. O Fliperama recomenda!
Norte Digital
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